domingo, 7 de março de 2010

Meu eterno carnaval

Tudo começou quando eu tinha 5 anos, meus pais se mudaram da pequena cidade em que nasceram, cidade onde ainda moravam meus avós. Sempre que podiam íamos visitar-los nos feriados, mas o feriado que eu mais gosto de lembrar é o carnaval. Não por causa da festa, da bagunça, dos bailes, ou de qualquer outra coisa que todo mundo lembra do carnaval, eu lembro dele.
Nós nos conhecemos no baile do clube, éramos apenas crianças, não sabíamos o quão importante seria aquele dia. Só nos encontrávamos no mesmo baile de carnaval, todo ano, no começo era apenas um amigo, quase um desconhecido, depois eu passei a contar os dias para reencontrá-lo, e naquele carnaval dos meus 15 anos, eu me apaixonei por ele.
Ainda me lembro daquele dia com todos os detalhes, eu e meus pais pegamos a estrada, horas depois chegamos, eu estava muito animada, ansiosa para encontrá-lo, será que ele estaria lá? Será que se lembra de mim? Todos aqueles 12 meses de espera, como demoravam.
Os minutos não passavam, os minutos eram dolorosos.
Mas eu estava lá, na estrada do clube, queria correr mas entrei com calma no salão, bastou passar o olho no salão duas vezes, e lá estava ele, no canto do salão, estava encostado em uma parede, com o olhar melancólico, parecia agoniado.
Fui até ele, e no exato momento em que me viu, sua expressão mudou completamente, parecia animado, nervoso, seus olhos brilhavam. Ele me puxou pela mão e me levou para fora do salão.
“Eu vou falar rápido, preciso te contar não aguento mais”
Eu estava um pouco assustada, será que ele também pensava em mim?
“Durante todos esses meses que esperei de um carnaval para o outro, você esteve presente na minha mente, todos os dias, todas as horas, eu queria te ver, falar com você, dançar com você, mas eu a única coisa que eu sei sobre você é um nome, o nome que fica na mente se repetindo, seguido da imagem do seu rosto, que sorri pra mim, eu me apaixonei por você.”
A cada palavra que ele falou meu coração deu salto. Assim que ele terminou de falar, me adiantei, e fiz o que eu tive vontade de fazer em todos os meses de espera, eu o abracei, e repeti no seu ouvido:
“Eu sinto a mesma coisa.”
Aquele foi o melhor dia da minha vida, eu estava com ele, e podia demonstrar tudo o que eu sentia dentro de mim.
Fizemos planos, trocamos telefone, e prometemos manter contato, e nos ver antes do próximo carnaval.

No dia seguinte voltei para a minha cidade, horas no carro, quanto mais o carro de distanciava, mais eu sentia meu coração longe.

Ficávamos horas no telefone, horas nos falando pela internet, eu estava completamente apaixonada por ele, não queria saber de nenhum outro garoto, só ele ficava em minha mente. Eu sentia uma felicidade enorme de ter meu sentimento correspondido, e uma tristeza enorme de não poder ter ele comigo, todo o tempo. Quando eu pensava nele me sentia bem, me sentia mais madura, mais feminina, me sentia completamente dele.
Ele começou a vir todos os finais de semana para a minha cidade, tudo estava bem, estava ótimo o nosso namoro, eu o amava mais que a mim mesma, já tinha se passado 6 meses.
Até hoje eu me pergunto, porque o destino foi tão traiçoeiro conosco?
Seus pais se mudaram para Itália, oportunidade de emprego, e ele teria de ir junto.
Quando a noticia chegou eu quase não pude acreditar, eu preferia morrer a não ver mais ele.
“Eu prometo meu amor, eu prometo que vou voltar, vou voltar e ficar aqui com você.”
As palavras dele me acalmaram, sua promessa me parecia tão sincera. Logo ele faria 18 anos, poderia voltar, viver no Brasil, poderia voltar para mim, eram só 5 meses, só isso eu teria de esperar.
Os cinco meses mais difíceis da minha vida, eu não podia vê-lo, mas a imagem de nos dois juntos não saia da minha cabeça, nos falávamos todos os dias, e contávamos os dias para que ele voltasse pra mim.

Meses foram passando, lentamente, nós nos amávamos da mesma forma, ele já tinha data certa pra voltar, e o mesmo destino que nos separou, nos pregou uma surpresa, ele estaria aqui, exatamente no carnaval, carnaval que nos uniu, e que vai nos reencontrar.

Sai cedo de casa naquele dia, fui para o aeroporto, esperei ansiosamente cada minuto no saguão, meu amado logo estaria comigo.

O seu vôo já estava atrasado 2 horas, eu não agüentava mais esperar. Até que me chegou a noticia, a pior noticia que poderiam me dar.
O que aconteceu com ele? Onde ele está? Porque demora tanto?
Ele estava morto.
Toda a minha vontade de viver se foi com ele.
Um acidente de avião, um carnaval, o meu ultimo carnaval.
Ele estava morto e eu não queria mais viver.
Voltei para casa, eu ainda não conseguia entender, eu nunca mais o veria, nunca mais escutaria sua voz, ele estava morto, e eu também queria estar.
A vida é uma coisa tão frágil, em uma hora estamos aqui, na outra podemos não estar, um tiro, um corte, como era tão fácil acabar com ela.
Acabar com a minha vida, e com toda a minha tristeza de não ter ele, era fácil, aquela situação me encantava, e me chamava.
Só foi preciso uma corda.
Eu me enforquei naquele carnaval.
Tudo ficou negro em um segundo, tudo acalmou em um segundo.
Me vi em um corredor escuro, cheio de portas, o que teria atrás delas?
Fui ate uma e coloquei a mão na maçaneta, não pude abrir, escutei alguém gritar meu nome, olhei para o fim do corredor, de onde vinha o som, consegui ver alguém correndo, chegava mais próximo a cada segundo, esse alguém parecia ansioso, corria rápido e quase se atrapalhava com os passos, quando chegou até mim, era um homem, um menino, os meus olhos não podiam acreditar no que viam.
Era ele, era o meu amor, a morte me trouxe ele.
Ele me guiou para uma das muitas portas, entramos por ela, e atrás dela estava um salão, um salão igual àquele do clube nos dias de carnaval. Percebi que minha roupa se transformara em uma fantasia e a dele também.
E aqui estamos nós, no nosso baile de carnaval, e agora nos temos a eternidade inteira para vivê-lo.

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