quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um brinde, ao esquecimento



Eram 7 da manhã. O barulho do despertador tocando ecoava por seus ouvidos como um sino de igreja badalando ao seu lado. Lentamente levantou a mão e o desligou, como fazia todo sábado pela simples preguiça de desprogramá-lo para o final de semana. Mas esse não era um sábado como os outros. Na verdade, a noite passada não foi uma noite como as outras. Mas sua cabeça doía demais sequer para associar que dia era hoje, quanto mais para se lembrar de tudo o que aconteceu. Calmamente, abriu os olhos e sentou-se na beirada da cama. O mundo ao seu redor girava feito um carrossel.


Lembrava-se de ter saído de casa pela noite, mas isso era tudo. Aonde teria ido, e por que razão teria bebido tanto? Logo ele, que raramente bebia... Apenas nos momentos de desespero ou de raiva, em que usava a bebida como uma distração para sua mente. Mas era consciente, sabia a hora de parar, nunca havia bebido além do que suportava. Até ontem. Por que aquilo estava acontecendo? Como um moribundo, levantou-se e se arrastou até o banheiro. Apoiou-se na pia e se olhou no espelho. Descabelado, os olhos semicerrados, sem brilho algum. A claridade que entrava pela janela não pemitia que eles se abrissem muito mais que isso. Olhou para sua pele pálida, a barba por fazer...
Mas novamente prestou atenção em seu olhar. Não era a luz que quase o cegava que havia tirado o brilho do seu olhar. Ele sabia que alguma coisa havia acontecido. Alguma coisa terrível, que ele tentou apagar de sua memória. E conseguiu. Pelo menos temporariamente. Tentava se lembrar... Aos poucos, lembrou de estar sentado em um bar escuro, aquele perto de sua casa, onde sempre se encontrava com seus amigos nos dias de futebol. Tinha um copo de whiskey nas mãos. "Mais uma dose, dessa vez sem gelo." Lembrou-se de alguns fatos acontecidos naquela noite. O casal sentado na mesa do canto se beijando incontrolavelmente. "Arrumem um quarto, seus merdas" lembra-se de ter pensado. Alguns bêbados jogando sinuca e rindo alto sempre que um deles errava uma tacada devido à bebedeira. Os três amigos sentados no balcão olhando discaradamente para a mesa onde se encontravam três belas jovens, que lhes retribuíam os olhares dando alguns sorrisinhos. Parte do clássico jogo de sedução barata que cansava de ver por ali. E ele tomando seu whiskey.
Mas nada disso importava. Buscava explicações, e isso não explicava nada. O que tinha acontecido antes dele chegar naquele bar? Esforçando-se, lembrou de ter chegado do trabalho no horário de sempre, por volta das 6 da tarde. Sua cabeça doía cada vez mais, mas ele ignorava a dor. Concentrava-se no dia de ontem. O que tinha feito depois de chegar em casa? Frustrado por não conseguir associar os fatos, saiu do banheiro e lentamente caminhou em direção à sala. Passou pelo pequeno corredor, cheio de retratos na parede. Fotos suas com os amigos em uma das várias viagens que fizeram juntos. Bons anos aqueles da faculdade... Uma foto junto de seus pais, tirada quando ainda era pequeno na inesquecível viagem para a Europa. Em outra foto, viu a si mesmo com um sorriso no rosto abraçado com seu cachorro, amigo fiel de tantos anos.
Foi então que viu o retrato que clareou sua mente. Uma foto dela. Sorrindo, mostrando aqueles dentes brancos e perfeitos. Seu olhar de felicidade parecia o encarar. Há quanto tempo não via aquele olhar de felicidade nos olhos dela? Sentia falta de olhar naqueles olhos que tanto o confortavam. Imediatamente lembrou-se da carta. Dirigiu-se até a mesa da sala, e lá estava ela. A carta que leu depois de chegar em casa. Pegando-a na mão, fez um esforço para conseguir ler. A maldita ressaca confundia sua mente. Mas conseguiu ler, lentamente.
Cada frase era como uma punhalada em suas costas. Ao chegar no final, não se conteve e derramou uma lágrima. "Me desculpe acabar assim. Mas a gente sabia que cedo ou tarde o fim seria esse." Sabia que era verdade, mas nao queria acreditar. A ideia não entrava em sua cabeça. Não podia ter acabado assim. Aquela mulher que o fazia tão bem, que o completava. Aquela mulher que havia preenchido o vazio em sua vida não podia simplesmente abandona-lo daquele jeito. Mas ela o fez. Os problemas já haviam começado faz tempo. E a cada dia iam tornando-se piores. Cada vez mais discussões, mais raiva de ambos os lados. No fundo, sabia que aquele dia chegaria, que era uma questão de tempo até um dos dois se cansar da mentira que estavam vivendo. Mas não conseguia lidar com isso. Queria de volta aqueles dias de alegria, de paixão, que achou que iam durar pra sempre. Como se sua vida fosse um filme. Mas não era. A sua realidade era bem diferente daquela contada em Hollywood. Saiu andando atordoado, não conseguia processar os fatos em sua mente. Sentou-se no sofá e chorou. Chorou como nunca havia chorado. Blasfemou, gritou, amaldiçoou sua vida incansavelmente.
Quando finalmente se acalmou, apoiou a cabeça em suas mãos, vendo em sua frente uma garrafa de whiskey pela metade. Apesar da ressaca ainda o atormentar, a ideia pareceu-lhe sensata. A mesma ideia que teve na noite passada. Pegou um copo e despejou uma dose daquele líquido do esquecimento nele. Sabia que aquilo não era a solução para seus problemas, mas era uma saída temporária. E começou a beber novamente. Beber, para esquecer. Esquecer, para conseguir sobreviver aquele dia interminável. Um dia sem ela. O primeiro de muitos. Um brinde ao esquecimento!

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